Um vídeo gravado no Parque Indígena do Xingu, em Mato Grosso, gerou forte reação de organizações indígenas contra o apresentador Luciano Huck. Nas imagens, ele pede que indígenas não apareçam com celulares e não usem roupas do dia a dia nas gravações, defendendo uma aparência “tradicional” para as câmeras. Notas de repúdio da Apib e…
Um vídeo gravado no Parque Indígena do Xingu, em Mato Grosso, gerou forte reação de organizações indígenas contra o apresentador Luciano Huck. Nas imagens, ele pede que indígenas não apareçam com celulares e não usem roupas do dia a dia nas gravações, defendendo uma aparência “tradicional” para as câmeras.
A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) publicou nota de repúdio afirmando que a postura de Huck reforça um estereótipo antigo, em que indígenas são tratados como figurantes exóticos para programas de TV. Segundo a entidade, a fala que “limpa a cultura de vocês” cria uma imagem artificial para a audiência, distante da realidade de quem convive com falta de políticas públicas, ataques a territórios e pressão de grileiros.
Já a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) criticou o fato de o apresentador sugerir que tecnologia “estraga” a cultura indígena. A entidade lembrou que hoje celulares e redes sociais são usados para denunciar invasões, registrar crimes ambientais e cobrar autoridades, e que não é o aparelho que define se alguém é ou não indígena.
Nas notas, as organizações enfatizam que a identidade indígena está ligada à ancestralidade, ao território e à luta coletiva, e não a fantasias montadas para entretenimento. Para elas, o episódio mostra como ainda existe uma visão folclórica sobre povos tradicionais, tratada como cenário para programas de domingo, e não como sujeitos com voz e direitos.
Os grupos afirmam que não precisam de apresentador global definindo o que é “autêntico” ou “puro” em sua cultura. O recado é que a cultura indígena não se perde por usar celular ou camiseta, mas quando o Estado e a sociedade ignoram ataques às terras, à saúde e à educação dessas comunidades.
Depois da repercussão negativa, Luciano Huck afirmou que se tratava apenas de uma escolha de “direção de arte” para o programa. A tentativa de explicação, porém, não conteve a indignação das entidades, que viram na fala um exemplo de como a TV ainda tenta controlar a imagem dos povos indígenas de acordo com o que é considerado “bonito” ou vendável para o público.
Para muitos críticos à esquerda e à direita, o caso expõe uma contradição da própria elite midiática: em discurso, defende diversidade e respeito, mas na prática, quando tem poder de edição e enquadramento, acaba reforçando estereótipos e tratando povos tradicionais como adorno. Essa distância entre narrativa e atitude concreta alimenta o cansaço de quem se sente usado como pauta, mas pouco ouvido na hora de discutir problemas reais, como segurança, demarcação e desenvolvimento nas aldeias.