O Projeto de Lei 2628/2022, popularmente chamado de PL das redes sociais, pretende regular a atuação de plataformas digitais voltadas para crianças e adolescentes…
O Projeto de Lei 2628/2022, popularmente chamado de PL das redes sociais, pretende regular a atuação de plataformas digitais voltadas para crianças e adolescentes no Brasil.
O texto mais recente, apresentado pelo deputado Jadyel Alencar (Republicanos/PI), propõe mudanças importantes — algumas celebradas por empresas de tecnologia, outras vistas com desconfiança por especialistas em liberdade de expressão.
O PL nasceu com a promessa de proteger menores de idade contra conteúdos nocivos e riscos digitais. Ele surgiu em meio a debates globais sobre o impacto das redes sociais na saúde mental e no desenvolvimento infantil.
No Brasil, a pressão para criar uma lei ganhou força após denúncias de casos de adultização precoce de crianças em plataformas, reveladas por influenciadores e amplamente repercutidas na mídia.
O próprio presidente da Câmara, Hugo Motta, determinou prioridade na tramitação de projetos ligados à infância no ambiente digital.
Um dos pontos mais polêmicos foi a retirada da expressão “dever de cuidado”, conceito inspirado na legislação europeia que obrigaria as plataformas a agir preventivamente para evitar danos.
Segundo o relator, o termo poderia permitir interpretações amplas e imprecisas, abrindo margem para exigências desproporcionais — como o monitoramento prévio e constante de postagens, algo visto como tecnicamente inviável e juridicamente arriscado.
No lugar, entrou a formulação “prevenção, proteção, informação e segurança”, que mantém a intenção de proteger menores, mas sem obrigar filtragem automática de conteúdo.
Na versão anterior do PL, cabia às plataformas impedir ativamente o acesso de crianças a redes sociais.
Agora, a redação transfere parte dessa responsabilidade para as famílias, exigindo que as empresas ofereçam ferramentas eficazes de controle parental.
Essa mudança é vista por alguns especialistas como positiva, pois preserva o papel central dos pais e responsáveis.
Por outro lado, críticos afirmam que muitas famílias não têm conhecimento técnico para configurar esses controles, o que pode deixar menores expostos.
O projeto passa a exigir que todas as empresas de tecnologia tenham um representante legal no país.
Esse representante poderá responder diretamente a órgãos públicos e cumprir ordens judiciais de remoção de conteúdos.
Ponto positivo: facilita a aplicação da lei e evita que ordens judiciais sejam ignoradas por empresas sediadas no exterior.
Ponto de atenção: abre margem para pressão política e pedidos de remoção que, sob o pretexto de proteger crianças, possam atingir conteúdos de interesse público.
O texto define com clareza quais conteúdos são impróprios para menores:
Além disso, cria regras para verificação de idade, proibindo que o silêncio do usuário seja interpretado como consentimento.
O PL mantém a proibição de publicidade direcionada a menores baseada em coleta de dados.
Essa medida impede que anúncios sejam segmentados por idade, histórico de navegação ou interesses, fortalecendo a privacidade de crianças.
A União Europeia adotou o Digital Services Act (DSA), que impõe obrigações rígidas para plataformas, incluindo avaliações de risco e relatórios de transparência.
Já nos Estados Unidos, a Children’s Online Privacy Protection Act (COPPA) limita a coleta de dados de menores, mas não obriga moderação preventiva de conteúdo.
O Brasil, com o PL 2628/2022, segue um caminho intermediário — mas a ausência do “dever de cuidado” pode ser vista como um afrouxamento se comparado ao modelo europeu.
Embora o projeto tenha como justificativa proteger menores, há preocupações legítimas de que ele possa ser usado politicamente para censurar conteúdos.
Veja como isso poderia acontecer:
Especialistas alertam que o mesmo mecanismo que remove pornografia pode ser usado para tirar do ar críticas ao governo.
Fontes próximas ao relator revelam que, nos primeiros rascunhos, havia uma cláusula permitindo que plataformas banissem automaticamente contas suspeitas de serem de menores, usando apenas algoritmos de detecção de idade.
O risco de erros era enorme: perfis legítimos poderiam ser apagados injustamente.
A pressão de big techs e juristas foi decisiva para a exclusão dessa proposta, mas alguns parlamentares ainda defendem sua volta em votação no plenário.
O texto será analisado pela Comissão de Comunicação.
Se aprovado, segue para votação no plenário da Câmara e, depois, para o Senado.
O governo, que oficialmente apoia o projeto, pode usar sua base para aprovar alterações de última hora.
O PL das redes sociais representa um avanço na proteção de crianças no ambiente digital, mas carrega potenciais armadilhas.
Se mal regulamentado ou aplicado de forma politizada, pode se tornar um instrumento de censura sob a máscara de proteção infantil.