Detento em Uberlândia é flagrado com seis celulares, fumo e papel escondidos no estômago. O caso chocante revela falhas e riscos no sistema prisional.
Um caso inacreditável chamou a atenção das autoridades e da população de Uberlândia, no Triângulo Mineiro. Na última terça-feira (12), um detento do Presídio Professor Jacy de Assis foi flagrado com nada menos que seis celulares escondidos… dentro do estômago. Junto com os aparelhos, os agentes também identificaram uma porção de fumo e um maço de papel usado para enrolar cigarros.
A situação veio à tona durante uma operação de revista nas celas da unidade prisional. Policiais penais desconfiaram do comportamento de um dos detentos, que demonstrava nervosismo e desconforto físico. Para confirmar as suspeitas, foi utilizado um scanner corporal — equipamento que permite a visualização do interior do corpo humano sem necessidade de exames invasivos. Foi aí que veio a surpresa: vários objetos estavam visivelmente alojados no sistema digestivo do homem.
Sem alternativa, o detento foi conduzido para atendimento médico e os itens foram retirados sob cuidados hospitalares. Os objetos apreendidos foram encaminhados para a Polícia Civil, que agora conduz uma investigação para entender como os aparelhos e os demais materiais foram parar dentro do presídio e quem pode estar envolvido.
A direção do presídio também instaurou um processo interno para apurar o ocorrido e aplicar eventuais sanções disciplinares ao detento. Ele será ouvido pelo Conselho Disciplinar da unidade e pode receber desde advertências até uma notificação ao juiz responsável pela execução da sua pena. Tudo depende da avaliação do caso.
Apesar de parecer absurdo, o caso não é único. Em outras partes de Minas Gerais, já foram registrados episódios semelhantes. Em 2018, por exemplo, um preso em Formiga precisou ser internado após engolir cinco celulares e dois carregadores. Em 2023, outro caso ganhou repercussão: um detento em Varginha precisou passar por cirurgia após tentar esconder um celular dentro do corpo.
Esse tipo de prática tem se tornado cada vez mais comum em unidades prisionais brasileiras, principalmente nas que enfrentam superlotação e baixo efetivo de fiscalização. A entrada de celulares em presídios é um dos maiores desafios do sistema penitenciário. Com um simples aparelho, um detento pode coordenar crimes fora da prisão, ameaçar vítimas, acessar redes sociais ou manter comunicação com comparsas.
Diante disso, muitos presos recorrem a métodos extremos para burlar as revistas — inclusive colocando a própria vida em risco. Engolir objetos metálicos e eletrônicos pode causar lesões graves, perfuração no trato intestinal, infecções generalizadas e até morte. Tudo isso para manter uma rede de comunicação clandestina.
No caso de Uberlândia, o uso do scanner corporal foi essencial. Equipamentos como esse vêm sendo adotados em diversas unidades do país para reforçar a segurança e a fiscalização interna. Eles permitem que agentes detectem objetos escondidos dentro de roupas, orifícios ou até mesmo no interior do corpo, sem a necessidade de procedimentos invasivos.
Além do scanner, algumas unidades estão investindo em bloqueadores de sinal de celular. No entanto, essas tecnologias ainda são caras e não estão presentes em todos os presídios. A falta de recursos e a superlotação tornam difícil o controle total sobre a entrada de objetos ilícitos.
No presídio onde o caso aconteceu, há denúncias anteriores de celulares sendo encontrados escondidos em colchões, roupas, solados de chinelo e até dentro de alimentos. A criatividade dos presos parece não ter limites — e, muitas vezes, conta com a conivência de terceiros, seja por negligência ou corrupção.
A descoberta do material com o detento levanta suspeitas de envolvimento externo. Como esses celulares e os outros objetos chegaram até ele? Teriam sido entregues por visitantes? Haveria facilitação por parte de funcionários? Essas são perguntas que a Polícia Civil agora tenta responder.
A apuração deve incluir análise das imagens de câmeras de segurança, verificação de visitas recentes e até escutas, caso necessário. O objetivo é identificar eventuais cúmplices e responsabilizar todos os envolvidos.
No âmbito interno, o presídio também precisa rever seus protocolos de revista e segurança. A entrada de seis celulares — e ainda outros materiais — não é algo simples. O fato de tudo isso estar escondido no estômago do preso mostra que há falhas na fiscalização e, possivelmente, rotinas previsíveis que facilitam esse tipo de prática.
O caso chama atenção também pela negligência com a própria saúde. Para engolir tantos objetos, o detento precisou de tempo, prática e provavelmente a ajuda de alguém. O corpo humano não está preparado para lidar com metais e baterias no sistema digestivo. Qualquer vazamento ou quebra dos aparelhos poderia ter causado um quadro gravíssimo.
Além disso, esse tipo de atitude demanda recursos do sistema de saúde pública. O detento precisou de atendimento especializado, exames e acompanhamento — tudo pago com dinheiro público. Casos assim geram custos e deslocam equipes que poderiam estar atendendo outras urgências.
A cena é chocante: um homem com seis celulares no estômago. Mas ela é também sintoma de um sistema prisional sobrecarregado, vulnerável e, muitas vezes, incapaz de cumprir seu papel de ressocialização. O acesso fácil a objetos ilícitos mostra que, apesar de cercado por grades, o crime ainda circula dentro das prisões.
Especialistas em segurança pública apontam que o problema vai além da tecnologia. É preciso investimento em inteligência, treinamento de agentes, estrutura adequada e, principalmente, uma gestão rigorosa do ambiente carcerário.
Enquanto isso não acontece, histórias como essa continuarão surgindo — e chocando.